quinta-feira, 21 de agosto de 2025

A resposta é "sim" à pergunta "Somos um país de incendiários?"

FACTOS PRIMEIRO | E há mais sete perguntas para esclarecer. Trata-se de factos, não de opiniões

À medida que as chamas consomem território, cresce a necessidade de perceber a real dimensão das tragédias. A CNN Portugal reuniu dados oficiais para responder e separar factos de percepções.


1) O verão de 2025 está a ser especialmente quente?

Explicação: ainda não existem dados oficiais do Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA) que permitam confirmar se este verão está a ser, de facto, mais quente do que o habitual. Mas há indícios claros de que sim. Julho não trouxe temperaturas particularmente extremas, mas agosto está a ficar marcado por ondas de calor persistentes e temperaturas muito acima da média para o país.

Este cenário está alinhado com a tendência global: o aquecimento climático tem vindo a transformar os verões europeus em estações mais quentes e longas. Primeiro 2023 foi considerado o ano mais quente de sempre; depois, 2024 ultrapassou essa marca, registando novos máximos históricos.

Em 2025 há ainda um fator particular: o ano começou com muita chuva, ao contrário da seca prolongada que marcou anos recentes. Isso trouxe um aparente alívio, mas também teve consequências indesejadas: mais vegetação disponível para servir de combustível nos meses quentes.

Avaliação: ainda sem dados disponíveis, sujeito a confirmação oficial do IPMA.

2) 2025 é o pior ano de sempre em incêndios? 

Explicação: de acordo com o Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF), até 18 de agosto tinham ocorrido 6.480 incêndios, que destruíram mais de 201 mil hectares de espaços rurais. A média dos 11 anos anteriores rondou os 114 mil hectares por ano: este ano, Portugal já está muito acima do valor habitual.

O pior ano continua a ser 2017, quando arderam 537 mil hectares em Portugal, uma área equivalente a mais de cinco vezes a cidade de Lisboa. No entanto, há um dado que torna 2025 ainda mais preocupante: a dimensão média de cada incêndio. Até agora, cada fogo destruiu em média 31 hectares. Em 2017, esse valor tinha ficado em 28 hectares. Isto significa que, em média, os incêndios de 2025 são maiores e mais difíceis de controlar.

Existem cada vez mais megaincêndios, ou seja, aqueles que consomem mais de 10 mil hectares: de acordo com o portal floresta.pt, entre 2020 a 2023 houve 24 megaincêndios, quase tantos quanto os 27 megaincêndios contabilizados entre 2000 e 2019.

A dimensão dos fogos de 2025 confirma essa tendência. O incêndio de Freches, Trancoso, que teve início a 9 de agosto, devastou 49.324 hectares, e o de Piódão, em Arganil, ativo desde 13 de agosto, já queimou pelo menos 47.432 hectares, segundo relatório provisório do SGIF. Estes dois incêndios só ficam atrás do de Vilarinho, Lousã, em 2017, com cerca de 53 mil hectares, considerado o maior de sempre desde que há registos.

Até terça-feira, registavam-se 73 grandes incêndios (mais de 100 hectares), responsáveis por 96% da área ardida em Portugal em 2025, um sinal claro da violência com que o fogo tem atingido o território.lourish chart

Avaliação: não, 2017 mantém-se como o pior ano. Mas 2025, até 18 de agosto, já é o segundo pior em área ardida e regista fogos mais devastadores do que a média dos últimos anos. Note-se que, em 2017, só até à mesma data, o número de hectares ardidos era superior, mas pouco.

3) 2025 está a ser idêntico a 2017? 

Explicação: a comparação é frequente mas não deve limitar-se à área ardida até 18 de agosto (ver em cima).

A principal razão é humana: em 2017 morreram 116 pessoas nos incêndios, entre os de Pedrógão Grande (66) e os de outubro (50). Muitas das vítimas não conseguiram fugir ou foram apanhadas dentro de casa. Foi um trauma coletivo que ainda hoje marca o país.

Em 2025, até 19 de agosto, o número de vítimas mortais é de três: dois bombeiros e um civil. A diferença é abissal e sugere que, apesar da dimensão dos fogos, a resposta de proteção civil e a preparação da população estão a ser mais eficazes.

Quanto à área ardida, os números até 18 de agosto são semelhantes em 2025 e 2017. Mas em outubro de 2017 arderam cerca de 240 mil hectares em apenas três dias. Nada semelhante aconteceu em 2025 até ao momento.

Avaliação: não. 2025 não se compara a 2017 em número de mortos. Em termos de área ardida, os valores até agosto são próximos, mas em 2017 a tragédia de outubro tornou aquele ano incomparável.

4) Portugal é o país da União Europeia com mais área ardida? 

Explicação: Portugal é, de longe, o país europeu que mais vê o seu território consumido pelas chamas.

Entre 2006 e 2024, arderam em média todos os anos cerca de 1% do território nacional. Os dados são internacionais e foram coligidos pelo jornal Público:  o valor é quase três vezes maior do que o registado pela Grécia, que surge em segundo lugar com 0,38%.

Em 2025, a situação agravou-se: até meados de agosto, já tinham ardido 2,35% do território português, o equivalente a mais de 200 mil hectares. Só o Chipre registou um valor relativo semelhante - 2,3% do país -, mas em números absolutos isso corresponde apenas a 13 mil hectares.

Avaliação: sim. Portugal é o país da União Europeia com mais área ardida, e em 2025 supera a sua média histórica.

5) Somos um país de incendiários?

Explicação: das ocorrências já investigadas em 2025, o incendiarismo representa cerca de 25% das causas identificadas. Mas se olharmos para os últimos anos, a percentagem sobe: entre 2011 e 2023, e segundo um estudo da revista "Divergente", feito pelos jornalistas Sofia Palma Rodrigues e Manuel Bívar, mais de metade da área ardida em Portugal teve origem em fogos ateados de forma intencional.

Dado adicional: o número de incendiários presos tem vindo a crescer. De acordo com o Ministério da Justiça, em agosto de 2024 havia 57 pessoas a cumprir pena efetiva pelo crime de incendiarismo e outras 12 em prisão preventiva. São os números mais altos desde 2013, ano em que começou a recolha de estatísticas. Este número compara com milhares de casos de fogo posto registados pelas autoridades todos os anos. Desde 1 de janeiro até 13 de agosto, foram detidas 42 pessoas em "flagrante delito", de acordo com um comunicado de imprensa enviado pela GNR à comunicação social.

O perfil do incendiário português tem sido descrito pela Polícia Judiciária: trata-se, maioritariamente, de homens, muitas vezes com histórico de alcoolismo ou problemas psiquiátricos. Segundo o mesmo estudo da revista Divergente, as motivações variam entre a vingança, a raiva, a excitação ou o simples desejo de chamar a atenção.

Avaliação: sim, uma parte significativa dos incêndios em Portugal é provocada de forma intencional.

6) Há cada vez mais mortes de bombeiros e civis?

Explicação: desde 1980, morreram 257 bombeiros em combate às chamas, segundo a Liga dos Bombeiros, citada pelo Jornal de Notícias. Houve anos particularmente trágicos, como 1985 (19 mortes) ou 2005 (16 mortes). Mais recentemente, 2013 voltou a ser um ano negro, com 10 bombeiros mortos. Só 2019 foi exceção, com zero vítimas mortais entre os operacionais.

Entre 2020 e 2025, já se registaram 21 mortes de bombeiros. Este ano, dois operacionais perderam a vida. Desde 26 de julho, foram ainda registados ferimentos em cerca de 240 bombeiros, dos quais 140 nas últimas três semanas, sobretudo por inalação de fumo, fraturas ou entorses.

Do lado da população civil, os últimos dez anos somam 163 mortos. A maioria aconteceu em 2017, mas desde então as fatalidades continuam a repetir-se, ainda que em menor escala.

Avaliação: sim. Apesar de alguns anos excecionais sem vítimas, a tendência é de manutenção de números elevados, com bombeiros e civis a continuarem a perder a vida.

7) Portugal tem recorrido a ajuda internacional?

Explicação: nos últimos dez anos, Portugal pediu apoio internacional em nove ocasiões. Espanha é o país que mais tem colaborado, mas também houve ajuda de Marrocos, Itália e até da Rússia. Esse apoio tem incluído aviões Canadair, equipas de combate e reforço logístico. De acordo com dados do Sindicato Nacional da Proteção Civil, em declarações à CNN Portugal, 2021 foi o único ano em que o país não solicitou ajuda externa.

Mas, além da ajuda bilateral, há também o enquadramento europeu. Segundo dados do Mecanismo Europeu de Proteção Civil (UCPM), Portugal recorreu formalmente a este instrumento 12 vezes por incêndios florestais desde 2016, em anos críticos como 2016, 2017 (junho, agosto e outubro), 2018 (abril e agosto), 2022 (julho e agosto), 2024 (agosto e setembro) e já em 2025 (15 de agosto).

Portugal tem ainda participado no programa europeu de pré-posicionamento de equipas durante as épocas de maior risco, recebendo bombeiros de outros Estados-membros destacados no território nacional. Só nos últimos três anos, estiveram presentes equipas da Letónia, da Finlândia e de Malta.

Em 2025, Portugal volta a recorrer à ajuda internacional, confirmando a dificuldade em controlar os grandes incêndios apenas com meios nacionais.

Avaliação: sim, Portugal tem pedido ajuda externa quase todos os anos. Espanha é o parceiro mais constante, mas outros países também já participaram no apoio.

8) Portugal investe muito ou pouco em prevenção?

Explicação: Segundo o Eurostat, em 2023 havia 362 mil bombeiros profissionais na União Europeia. Portugal contava com apenas 13 mil, um número que coloca o país a meio da tabela em termos proporcionais.

Proporção do número de bombeiros no emprego, por país da União Europeia. Portugal está em oitavo. Dados da Eurostat (2023)
O país continua a canalizar mais recursos para o combate do que para a prevenção. A limpeza das matas, a gestão da floresta e os projetos de ordenamento continuam a ficar para trás. Faltam meios, máquinas de rasto, bombeiros. Quando as condições climáticas se tornam extremas, o país está vulnerável.
Apesar de Portugal ser o país com mais área ardida da União Europeia, os dados da Eurostat mostram que a percentagem de despesa do Estado em proteção de incêndios fica abaixo da média europeia.

Avaliação: Portugal continua a investir mais em apagar fogos do que em evitá-los. E isso ajuda a explicar porque continua a liderar a lista europeia de área ardida.

In CNN Portugal