Incêndios. "As indicações não são animadoras", diz especialista
Com até 2.000 operacionais ativos a combater sete focos no norte e centro do País, as perspetivas são de que a situação piore nas próximas semanas, diz Xavier Viegas.
Foi a tempestade perfeita. Os sete principais incêndios que deflagraram nos últimos dias, atingindo as regiões de Arouca, Mangualde, Penamacor, Ponte de Lima, Ponte da Barca, Nisa e Santarém foram o resultado de condições meteorológicas ideais para a ignição de incêndios, que prometem continuar a agudizar-se caso a situação não mude.
É o que diz Xavier Viegas, professor emérito da Universidade de Coimbra e diretor do Centro de Estudos de Incêndios Florestais da mesma instituição. "Segundo as indicações do IPMA, este está a ser um dos anos mais difíceis do ponto de vista das condições meteorológicas, próximo de 2022, que teve várias ocorrências graves", refere.
O especialista explica que "o inverno e primavera chuvosos levaram ao crescimento de muita vegetação fina" que, com a falta de humidade sentida este verão, "vai secando e fica disponível para arder". A esta conjugação de fatores, acrescenta, "acresce que temos tido ventos bastante fortes durante a noite, e de rumo leste, que são os mais perigosos para incêndios no nosso País".
"É uma situação complicada", opina o professor, "tanto para suster os focos ativos quanto para manter a vigilância e evitar reacendimentos". Os últimos números da Proteção Civil davam conta de cerca de 2.700 operacionais destacados no combate na tarde de terça-feira, mas estes números poderão ainda aumentar.
"A nossa experiência mostra-nos que um número destes representa uma situação muito complicada, sobretudo se se estender por horas ou dias", contextualiza Xavier Viegas. "Não se pode dizer que o sistema esteja assoberbado, mas queremos que não haja mais ignições", sendo difícil acionar meios de vigilância e prevenção nestas condições.
Para piorar a situação, o especialista acrescenta, "as indicações que temos não são animadoras para as próximas semanas". Com a persistência deste clima, "vamos ter muito calor nos próximos dias, e enquanto não vier chuva a humidade dos combustíveis [vegetação fina e facilmente incendiável] vai continuar a diminuir" - "temos de considerar que vão continuar a estar reunidas as condições para mais ignições".
Nestas condições, Xavier Viegas considera fundamental "apelar ao civismo e evitar o uso de fogos que possam dar origem a fogos", além de "ter muito cuidado e seguir indicações das autoridades" nas regiões marcadas como de perigo elevado. "Têm sido tomadas medidas, como o corte das autoestradas principais, que merecem muita atenção e compreensão por parte de todas as pessoas", remata.
"Ainda há muito trabalho a fazer"
Quanto ao estado atual de preparação do País para lidar com catástrofes desta magnitude, acredita que o cenário é cinzento. "Se houve uma componente de todo o processo que melhorou foi o combate", opina, referindo a "organização, equipamento, treino e articulação de forças de combate" e vincando que os "resultados desse esforço" estão à vista.
Ainda assim, "não podemos levar isso como um sucesso absoluto", já que, "se estamos apenas a atuar sobre o combate estamos a permitir que continue a haver acumulação de biomassa, e nos anos em que as condições são favoráveis as áreas vão arder como temos visto". "Há mais oportunidades no território para que os incêndios mudem de comportamento", sublinha.
Já em relação à prevenção, a SÁBADO soube, no ano passado - em que o verão foi particularmente fortuito, com as maiores deflagrações a começarem apenas em setembro -, que "muito pouco mudou" neste domínio desde a tragédia de Pedrógão Grande, o incêndio mais mortífero da história do País, disse, na altura, Duarte Caldeira, presidente do Centro de Estudos e Intervenção em Proteção Civil.
Terá permanecido tudo igual desde aí? "Em parte concordo", afirma Xavier Viegas, reconhecendo, ainda assim, que "alguma coisa" se fez: "Há uma componente em que se avançou muito que foi a gestão de combustíveis junto das casas, há maior sensibilidade, vigilância e fiscalização, e as zonas estão bastante melhor protegidas."
No entanto, explica que "há uma boa parte da prevenção estrutural que está por fazer", incluindo a "criação de zonas de descontinuidade, gestão de mosaicos de vegetação e combustível e intervenção em áreas florestadas". Aponta que "há indicações de que coisas estão a ser feitas, mas são processos lentos."
In Sábado
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